O Beagle na América do Sul

Atualmente estou lendo o livro "Eu, primata", do primatólogo holandês Frans de Waal, mas como fiquei entusiasmado com a peça After Darwin, fiz uma pequena pausa para reler as setenta e duas páginas de um pequeno pocket book publicado pela Paz e Terra em 1996: O Beagle na América do Sul, de Charles Darwin.
Como recém terminei o "Breve História de quase tudo" de Bill Bryson (vou colocar um comentário aqui em breve, prometo) revi alguns causos interessantes (e tomei conhecimento de outros tantos) sobre o Darwin e sua teoria da evolução. Primeiro: este pocketzinho da Paz e Terra traz (pedaços, imagino) do texto "Voyage of the Beagle" escrito por Darwin durante sua viagem. Este não é seu livro mais comentado, veja... Darwin, depois de voltar para a Inglaterra após dois anos de viagem, levou mais vinte anos para publicar o hoje famoso "A Origem das Espécies". E ele só o fez tão depressa por que outros naturalistas, como Wallace, já estavam próximos de chegar nas mesmas conclusões do que ele.
O Beagle na América do Sul é um livrinho gostoso por inúmeras razões, primeiro a mais interessante é que ele descreve Fernando de Noronha, Salvador (na Bahia), o Rio de Janeiro (e Cabo Frio, e Botafogo) na década de 1830. Registra suas impressões sobre a escravidão no Brasil e depois parte para as ilhas Galápagos, em uma descrição que para o leitor de hoje, com alguma consciência ecológica, pode ser chocante.
Destaco três trechos interessantes, no primeiro, que estou certo estão na peça After Darwin (possivelmente este texto foi usado pelo tradutor), o jovem Darwin descreve a floresta no Rio de Janeiro:
"Uma mistura bastante paradoxal de som e silêncio impregna as partes sombreadas da floresta. O ruído dos insetos é tão alto que pode ser ouvido até mesmo num navio ancorado a várias centenas de jaras da praia; contudo, dentro dos recessos da floresta, parece reinar um silêncio universal."
Depois, os olhos ingleses de Darwin se chocam com a escravidão no Brasil (que convém mencionar já foi grande negócio para a Inglaterra). Com certa leveza ele descreve
"Durante as refeições, era tarefa de um homem enxotar da sala vários cães velhos bem como dúzias de criancinhas negras, que aproveitavam todas as oportunidades para entrar. Se a idéia de escravidão pudesse ser deixada de lado, haveria algo de extremamente fascinante nesse estilo simples e patriarcal de vida" [...]
Porém mais adiante, ele cai na real:
"[...]Posso mencionar um caso sem nenhuma importância que, na ocasião, impressionou-me mais vividamente do que qualquer história de crueldade. Estava fazendo uma travessia de balsa em companhia de um negro, que era incrivelmente estúpido. Tentando fazer-me entender, comecei a falar alto, a gesticular e, ao fazer isso, passei a mão perto de seu rosto. Ele, suponho, pensou que eu estava com raiva e ia bater nele, pois, imediatamente, com um olhar amedrontado e olhos semi-cerrados, baixou os braços. Nunca esquecerei do meu sentimento de surpresa, desagrado e vergonha, ao ver um homem grande e forte com medo até mesmo de desviar-se de um golpe dirigido, como pensou ele, para seu rosto. Esse homem havia sido treinado para suportar a degradação mais abjeta do que a escravidão do animal mais indefeso."
Agora voltando a temas mais amenos, embora não fale disso neste texto, Darwin deixa transparecer que já estava formulando suas idéias revolucionárias. Deve ter sido este tipo de coisa que exasperou o Capitão Fitzroy:
"[...] Fica claro que, se várias ilhas têm cada uma suas espécies peculiares dos mesmos gêneros, quando essas espécies se colocam juntas, terão uma ampla gama de características. Mas não há espaço neste trabalho para entrar nesse assunto curioso."
Um dos motivos que levaram Darwin a adiar sua obra por mais de vinte anos foi justamente a sua consciência do quanto sua teoria ia causar problemas. Embora ele nunca tenha dito isso, aceitar o darwinismo implica em aceitar que o homem e os macacos tem um ancestral comum, uma idéia impopular na época. Tão impopular como propor que a criação da vida na Terra (novas espécias ao menos) não é a obra de Deus, mas a obra do acaso. Darwin era casado com sua pima, uma mulher pela qual era apaixonado, ela era bastante religiosa e não ficava muito feliz com as idéias do marido, embora o apoiasse. Por conta de todas estas questões, ele mais de uma vez, em tom de brincadeira, chamava a si mesmo de "O Capelão do Diabo".
E "O Capelão do Diabo" é justamente o nome do livro que vou ler assim que terminar com "Eu, Primata", do Frans de Waal. Trata-se de uma coletânea de artigos sobre ciência de Richard Dawkins, o mesmo autor do controverso "Gene Egoísta". Mas eu escrevo sobre esses livros depois, quando os terminar de ler.
O BEAGLE NA AMERICA DO SUL - DARWIN , CHARLES
COLEÇÃO LEITURA / EDITORA: PAZ E TERRA
ISBN: 852190207-7
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