Eu, Primata – Por que somos como somos

Capa de Eu, Primata - quase uma homenagem a Gerge Bush
Capa de Eu, Primata - quase uma homenagem a Gerge Bush

Bom... vou aproveitar a deixa desta nova Bienal Internacional do Livro, que visitei hoje (domingo, 17 de agosto de 2008), para retomar as resenhas sobre os livros que tenho lido. No último post sobre livros eu mencionei que tinha feito uma pausa no "Eu, Primata", do Frans de Waal para ler O Beagle na América do Sul do Darwin. É eu sei, é esquisito mesmo. Eu vivo "pausando" os livros que estou lendo, é que eu tenho uma dificuldade enorme de ler um livro só por vez. Em geral eu leio uns 5 livros por vez, é um hábito ruim que me faz levar até dois anos para terminar alguns livros (o segundo volume dos contos do Machado de Assis que o diga). Essa taxa de 5 livros por vez costuma ser constante, então quando acabo um livro não fico com 4 pendentes, em geral acrescento mais um ou dois à pilha no meu criado mudo.Mas eu falo dessa excentricidade em outro momento, voltemos ao Frans de Waal. Quando folheei o livro pela primeira vez fiquei incrivelmente interessado no tema do livro e no tipo de ciência que é praticada pela Sr. Waal. Imaginem! Estudar o comportamento e as diferentes formas de soluções de conflito nas sociedades de primatas e macacos (sim, ele se refere aos grupos somo sociedades com alguma grau de liberdade aplicada ao conceito), poucas coisas poderiam ser mais interessantes. O holandês Fans de Waal é um primatólogo. Seu objeto de estudo são as "estratégias de resolução de conflitos e inteligência social em primatas como chimpanzés, bonobos e macacos-prego". Neste livros ele apresenta alguns casos onde compara os comportamentos de três dos primatas pelos quais nutre interesse: chimpanzés, bonobos e humanos. Ou nas palavras do próprio autor: "Os descendentes de um primata que existiu há 5 milhões de anos deu origem ao que hoje são três espécies. Uma estabelece hierarquias sociais com base na força física, é capaz de organizar-se em bandos para aniquilar grupos rivais; conhecemos os integrantes dessa espécie como chimpanzés. A segunda espécie tem sociedades matriarcais em que sexo é boa parte da comunicação - para repartir alegria, mitigar ira, afugentar medo ou porque deu vontade.[...] são chamados de bonobos. O terceiro é menos peludo e capaz de façanhas como ler e escrever este" post (era livro, mas eu mudei para encaixar o contexto). O livro é muito bom. Mesmo. Embora eu esperasse outra coisa dele. Veja ele esta classificado como Ciências Biológicas e Psicologia Comparada. Eu imaginei que ia ler um livro sobre biologia e comportamento animal, mas achei um livro sobre política. Fiquei meio desconfortável no começo, mas o resultado geral é interessante. No livro o objetivo de Waal é mais falar da política nas relações humanas, das visões de mundo dele do que das relações dos primatas que estuda. Até aí nenhum problema. Todo texto traz os objetivos do autor. Sempre. Apenas em alguns é mais fácil perceber, ou você está mais consciente do tema para perceber as intenções do autor. Mas já havia uma dica no sub-título, eu que não reparei. O sub-título do livro é:  por que somos como somos. Assim mesmo, sem a interrogação. Um leitor mais atento teria sacado que não há uma indagação na frase, mas sim uma afirmação. O título em inglês traz uma afirmação do mesmo quilate: Our inner ape - A leading primatologist explains why we are who we are. O interessante de Waal é que ele sustenta posições políticas escorado em premissas da biologia e da psicologia animal. Utiliza o que nos apresenta como os comportamentos naturais, ou comportamentos padrão dos primatas – nossos irmãos na evolução – para, por aproximação biológica, falar dos seres humanos e seus conflitos. Indo das relações entre homens e mulheres, turmas, vizinhos até a política internacional. Só como exemplo vale dizer que ele menciona o presidente americano George Bush umas três vezes no livro, nenhuma particularmente elogiosa. E isso não é uma crítica, é só uma constatação. (Aliás, o macaco na capa do livro é a cara do Bush!). Como disse é um livro divertido. A prosa leve de Waal traz para seus exemplos personagens tão díspares quanto o Sr Spock, os Beatles, Darwin, Stehpen Jay Gould, Kevin Coestener, Swarznegger e Stallone. Só para explicar como o livro é político, vale dizer que ele parece ter um tom de resposta ao "Gene Egoísta" do escritor Richard Dawkins (o mesmo autor de "O Capelão do Diabo" que estou lendo atualmente), Dawkins apresenta a idéia do egoísmo como uma característica gravada nos genes dos homens pela evolução e pela necessidade de sobrevivência. Tal idéia logo foi interpretada como se nós humanos não tivéssemos como fugir de toda violência que esse egoísmo naturalmente gera. Seríamos naturalmente maus. Tão maus quanto a evolução nos fez para sobreviver competindo com feras e com nossos próprios parentes. Bem. Waal pensa diferente e escreveu este livro para registrar esta idéia divergente e sem dúvida mais benevolente e otimista conosco. Em síntese, para ele: “Nós, humanos, mais sistematicamente brutais do que os chimpanzés e mais empáticos do que os bonobos, somos, de longe, os mais bipolares dos grandes primatas. Nossas sociedades nunca são totalmente pacíficas ou competitivas, nunca são de todo regidas pelo egoísmo nem perfeitamente morais. A natureza não costuma apresentar estados puros. O que vale para a sociedade humana também vale para a natureza humana. Vemos bondade e crueldade, nobreza e vulgaridade, às vezes até na mesma pessoa.” Como esta resenha fala de tudo menos do livro em si, você pode ler outra resenha sobre este livro, com uma abordagem diferente, no site da revista Pesquisa FAPESP

  • TÍTULO: Eu Primata
  • AUTOR: Frans de Waal
  • EDITORA: Cia. das Letras
  • PÁGINAS: 328
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  • ISBN: 9788535910629

 

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